Carlo Ancelotti vai estar no lugar certo, mas na hora errada. O técnico da seleção brasileira desembarca nesta terça-feira (10) no interior paulista para acompanhar, do camarote do estádio José Maria de Campos Maia, o confronto entre Mirassol e Santos, válido pela quinta rodada do Campeonato Brasileiro. O grande objetivo da missão, no entanto, não será cumprido: observar Neymar em ação.
O camisa 10 do Peixe foi poupado da partida por decisão conjunta entre a comissão técnica santista e o estafe do jogador. Apesar de ter atuado os 90 minutos nos jogos contra Novorizontino e Vasco, no fim de fevereiro, Neymar teve participação limitada nos treinos da última semana. Foram quatro dias de atividades no centro de treinamento (CT) em que o atacante ficou ausente ou realizou trabalhos à parte, focados no fortalecimento muscular e na prevenção de lesões.
De acordo com informações divulgadas pelo clube e pela imprensa especializada, a decisão de preservá-lo do jogo desta terça foi tomada após reavaliação do departamento médico e da comissão técnica comandada por Vojvoda. Embora Neymar apresentasse condições físicas para atuar, o risco de um problema muscular, ainda relacionado à cirurgia no menisco do joelho esquerdo realizada em dezembro, foi considerado alto demais para um jogo fora de casa, contra um adversário que estreia na Série A.
O resultado é um paradoxo para o jogador: na noite em que o técnico da Seleção Brasileira estará no estádio para vê-lo, Neymar estará em Santos, treinando separadamente no CT Rei Pelé, em busca do condicionamento físico que ainda não encontrou desde que voltou ao futebol brasileiro.
A conta-gotas rumo à Copa
O tempo, para Neymar, corre em duas velocidades. De um lado, a recuperação física exige paciência e etapas. De outro, o relógio da convocação não espera. Na próxima segunda-feira (16), Ancelotti anunciará a lista para os amistosos contra França e Croácia, nos dias 26 e 31 de março, nos Estados Unidos. Neymar está pré-convocado, mas sua presença na lista final dependerá da avaliação física e técnica dos próximos dias.
Mais importante, porém, é o horizonte seguinte. Em 19 de maio, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) divulgará a lista definitiva dos convocados para a Copa do Mundo, que começa em 11 de junho. Até lá, Neymar tem a possibilidade de disputar até 17 partidas pelo Santos, considerando Brasileirão, Copa do Brasil e Copa Sul-Americana. O número é promissor, mas exige que o atleta finalmente encontre uma sequência consistente.
O clássico deste domingo (15), contra o Corinthians, na Vila Belmiro, ganha, assim, um peso adicional. Será a única chance de Neymar mostrar serviço antes da convocação para os amistosos e, mais do que isso, a oportunidade de enviar um recado a Ancelotti de que sua recuperação está no caminho certo.
Olheiros da Seleção espalhados pelo país
Se Ancelotti não verá Neymar em campo nesta terça, verá outros nomes. O goleiro Gabriel Brazão, do Santos, e o lateral-esquerdo Reinaldo, do Mirassol, estão entre os jogadores que devem ser observados de perto pelo italiano e por Rodrigo Caetano, coordenador geral de Seleções, que também estará no estádio.
A comissão técnica da Seleção, no entanto, não se limitará a Mirassol. O Departamento de Seleções montou uma operação de observação que cobrirá sete partidas da quinta e da sexta rodadas do Brasileirão, espalhando seus integrantes por estádios de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia.
Na quarta-feira (11), Juan Santos (coordenador técnico), Cristiano Nunes (coordenador de preparação física) e Thomaz Araújo (analista de desempenho) estarão no Maracanã para o duelo entre Flamengo e Cruzeiro. No mesmo horário, Cícero Souza (gerente de Seleções) e Bruno Baquete (analista de desempenho) acompanharão o clássico Ba-Vi entre Bahia e Vitória, na Arena Fonte Nova.
Na quinta-feira (12), é a vez de Rodrigo Caetano e Thomaz Araújo irem a São Januário para Vasco e Palmeiras. No sábado (14), Ancelotti volta a campo, desta vez no Nilton Santos, para o clássico carioca entre Botafogo e Flamengo, acompanhado por Rodrigo Caetano e pela analista de desempenho Simone Montanaro.
O clássico que concentra as atenções
No domingo (15), enquanto Neymar tenta mostrar evolução contra o Corinthians, os olheiros da Seleção estarão divididos. Mino Fulco, Franchesco Mauri, Bruno Baquete e o preparador de goleiros Taffarel assistirão ao clássico na Vila Belmiro. No mesmo horário, Davide Ancelotti, filho e auxiliar do técnico, e Thomaz Araújo estarão no Allianz Parque para Palmeiras e Mirassol.
A logística revela uma estratégia clara da CBF: aproveitar as primeiras rodadas do Brasileirão para observar de perto o maior número possível de jogadores, num momento em que os estaduais se encerram e a competição nacional ganha tração. Para nomes como Neymar, porém, a janela de observação é mais apertada. Cada jogo perdido é uma chance a menos de convencer.
Aos 34 anos, Neymar enfrenta um desafio que vai além da técnica. A cirurgia no joelho esquerdo, em dezembro, foi a mais recente de uma série de lesões que marcaram sua trajetória nos últimos anos. No Santos, a comissão técnica adota um discurso de cautela, mas o atacante precisa de uma sequência de jogos para aumentar suas chances de estar na Copa.
Ancelotti, por enquanto, mantém as portas abertas. O italiano conhece Neymar dos tempos de Paris Saint-Germain e já demonstrou publicamente que acompanha a recuperação do atacante. A pergunta que o técnico da Seleção leva para o estádio nesta terça, mesmo sem o camisa 10 em campo, é a mesma que milhões de torcedores se fazem: Neymar chegará a tempo?
A resposta, por enquanto, fica para os gramados. O primeiro capítulo decisivo será no domingo (15), na Vila Belmiro. Ancelotti não estará lá, mas seus auxiliares, sim. E o relógio, implacável, segue contando.
