O prazo dado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para que o Irã reabra o Estreito de Ormuz "sem ameaças" expira nesta segunda-feira (23). A ameaça de uma escalada no conflito entre os dois países pressionou os mercados globais, com o preço do petróleo em alta e as bolsas asiáticas registrando fortes quedas.
Na noite de sábado (21), Trump publicou em sua plataforma Truth Social um ultimato de 48 horas: "Se o Irã não abrir completamente, sem ameaças, o Estreito de Ormuz, dentro de 48 horas a partir deste exato momento, os Estados Unidos da América atacarão e destruirão suas diversas usinas de energia, começando pela maior".
O Estreito de Ormuz é vital para o transporte de petróleo para o mundo inteiro. Em tempos de paz, cerca de 20% das remessas mundiais de petróleo e gás natural liquefeito passam pelo canal. O bloqueio e os ataques do Irã contra navios na região, que começaram após os ataques dos EUA e Israel ao país em 28 de fevereiro, fizeram os preços do petróleo dispararem nas últimas semanas.
A reação do Irã
Em comunicado divulgado pela mídia iraniana no domingo (22), a Guarda Revolucionária disse ainda que, se os EUA cumprirem as ameaças de atacar o setor energético iraniano, fecharão o estreito e não o reabrirão "até que nossas usinas de energia destruídas sejam reconstruídas".
Além disso, a entidade afirmou que atacará usinas de energia, infraestrutura energética e de tecnologia de informação em Israel "amplamente", além de "quaisquer empresas semelhantes na região" que tenham acionistas americanos. "As usinas de energia dos países da região que abrigam bases americanas serão nossos alvos legítimos". "Não começamos a guerra e não a começaremos agora, mas se o inimigo prejudicar nossas usinas de energia, faremos tudo para defender o país e os interesses do nosso povo".
O representante do Irã na Organização Marítima Internacional (OMI) da ONU, Ali Mousavi, disse que o Estreito de Ormuz permanece aberto a toda a navegação, exceto para embarcações ligadas a "inimigos do Irã", segundo notícia da agência semioficial iraniana Mehr. Ele confirmou que a passagem pelo Estreito é possível mediante a coordenação de medidas de segurança com o Irã.
"A diplomacia continua sendo a prioridade do Irã. No entanto, a cessação completa da agressão, bem como a confiança mútua, são ainda mais importantes", disse Mousavi, acrescentando que os ataques israelenses e americanos contra o Irã estão na "raiz da situação atual" no Estreito.
A posição dos EUA e a conversa com o Reino Unido
Na noite de domingo (22), o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, conversou por telefone com Trump. A ligação durou 20 minutos e foi "construtiva", segundo Downing Street. Um porta-voz do governo britânico disse que os dois discutiram a situação no Oriente Médio e, "em particular, a necessidade de reabrir o Estreito de Ormuz para retomar o transporte marítimo global".
"Eles concordaram que a reabertura do Estreito de Ormuz era essencial para garantir a estabilidade no mercado global de energia". Ambos "concordaram em conversar novamente em breve".
No domingo, Trump compartilhou novamente um esquete satírico da recém-estreada versão britânica do programa de humor Saturday Night Live (SNL) em sua rede Truth Social, no qual atores interpretando Starmer e o vice-primeiro-ministro David Lammy conversam sobre uma iminente ligação telefônica com o presidente americano.
Trump ainda publicou uma breve mensagem em sua plataforma durante a madrugada, escrita em letras maiúsculas: "PAZ ATRAVÉS DA FORÇA, PARA DIZER O MÍNIMO!!!".
O Departamento de Estado dos EUA emitiu um novo alerta para cidadãos americanos em todo o mundo devido às tensões no Oriente Médio. Em comunicado divulgado no antigo Twitter, o departamento pede que americanos "em todo o mundo, e especialmente no Oriente Médio, exerçam cautela".
"Fechamentos periódicos do espaço aéreo podem causar transtornos em viagens. Instalações diplomáticas americanas, inclusive fora do Oriente Médio, têm sido alvos de ataques. Grupos que apoiam o Irã podem atacar outros interesses americanos no exterior ou locais associados aos EUA e/ou a cidadãos americanos em todo o mundo".
A escalada dos ataques na região
Nesse domingo, foi noticiada mais uma explosão nas proximidades de um navio cargueiro, a 27 quilômetros ao norte de Sharjah, nos Emirados Árabes, de acordo com a United Kingdom Maritime Trade Operations (UKMTO), a autoridade britânica de navegação. O comandante do navio relatou uma explosão "causada por um projétil desconhecido" perto da embarcação. Todos os tripulantes estão em segurança, disse a UKMTO.
Os Emirados Árabes e a Arábia Saudita afirmam ter interceptado ataques nesta manhã, com dois mísseis caindo em uma área desabitada, segundo a Arábia Saudita. Os Emirados Árabes mantêm um controle rígido sobre as informações, filmar quaisquer ataques ou danos é ilegal. O país afirma que a maioria dos ataques foi interceptada.
Em Israel, mais de 160 pessoas ficaram feridas após ataques iranianos no sábado. A informação é de autoridades israelenses, que também asseguram o tratamento de 84 pessoas em Arad e outras 78 em Dimona, depois de mísseis atingirem na noite de sábado as duas cidades, que ficam próximas a uma instalação nuclear.
A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) afirma não ter conhecimento de danos à instalação de pesquisa nuclear localizada a cerca de 13 quilômetros de Dimona.
O deputado iraniano Alaeddin Boroujrrdi afirmou neste domingo na televisão estatal que alguns navios que atravessam o Estreito de Ormuz estão sendo taxados em "US$ 2 milhões" pelo Irã. Ele disse que um "novo sistema" está sendo imposto no Estreito e que "a guerra tem um preço", declarando que isso demonstra a "autoridade e o direito que a República Islâmica do Irã possui" no local. A BBC não conseguiu verificar de forma independente a alegação do deputado iraniano sobre a taxa.
Com o prazo expirando nesta segunda-feira (23), a comunidade internacional observa atentamente os desdobramentos. Analistas avaliam que, se os EUA cumprirem a ameaça de atacar as usinas iranianas, o Irã prometeu retaliar com o fechamento total do Estreito e ataques a infraestruturas energéticas na região.
A guerra entre EUA, Israel e Irã, que completa 24 dias hoje, entrou em uma nova fase com a ameaça de ataques a infraestruturas energéticas, o que pode gerar impactos ainda mais severos no mercado global de petróleo e na economia mundial.
