Conflito no Oriente Médio

Irã descarta negociações com EUA enquanto Arábia Saudita e Emirados interceptam novos ataques

Chanceler iraniano nega ter pedido cessar-fogo e afirma que país continuará em autodefesa; conflito completa terceira semana com mortes civis em Abu Dhabi e ataques a infraestrutura energética

 

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou no último domingo (15) que seu país não pretende iniciar negociações com os Estados Unidos para encerrar o conflito que completa três semanas nesta segunda-feira (16). A declaração contraria afirmações feitas pelo presidente americano, Donald Trump, de que Teerã estaria interessado em um acordo.

Em entrevista à emissora CBS, Araghchi foi categórico ao negar qualquer movimentação diplomática por parte do Irã. "Não, nunca pedimos um cessar-fogo, e nunca pedimos sequer negociação. Estamos prontos para nos defender pelo tempo que for necessário", declarou.

O chanceler iraniano também defendeu os ataques realizados contra alvos na região do Golfo, insistindo que as forças iranianas miram exclusivamente ativos militares americanos. "Estamos mirando apenas ativos americanos, instalações americanas, bases militares americanas", afirmou, acrescentando que países do Golfo que abrigam forças dos EUA "deram seu solo para que forças americanas nos ataquem".

A posição iraniana foi reforçada em comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que desmentiu publicamente a declaração de Trump de que "o Irã quer chegar a um acordo". Araghchi disse ainda que Teerã não vê motivo para retomar conversações após ter sido atacado. "Não vemos razão para conversar com os americanos porque estávamos conversando com eles quando decidiram nos atacar".

Enquanto as declarações políticas se intensificam, os ataques na região prosseguem sem trégua. Autoridades da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos informaram ter interceptado dezenas de drones e mísseis lançados nas últimas horas.

Em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos, um cidadão palestino morreu após a queda de um míssil sobre um veículo, de acordo com o gabinete de mídia do governo local. A morte ocorre em meio à onda de retaliações iranianas contra a ofensiva americano-israelense iniciada em 28 de fevereiro.

O Aeroporto Internacional de Dubai precisou suspender temporariamente suas operações após um incêndio atingir um tanque de combustível, em incidente que as autoridades locais descreveram como "relacionado a um drone". A movimentação de voos foi retomada gradualmente horas depois, embora a companhia Emirates tenha cancelado algumas de suas operações programadas.

A Zona Industrial de Fujairah, importante polo de petróleo dos Emirados, também foi alvo de ataques com drones, registrando novos incidentes hoje (16) após uma primeira investida no sábado (14), que interrompeu embarques por cerca de um dia.

As defesas aéreas da Arábia Saudita interceptaram pelo menos 64 drones em um período de 12 horas, segundo autoridades. Comunicados do Ministério da Defesa saudita indicam que drones foram lançados em direção ao país aproximadamente uma vez por hora.

O conflito, que completa três semanas, já deixou um rastro de destruição e mortes por toda a região. De acordo com a agência de notícias Human Rights Activists News Agency, com sede nos EUA, mais de 3 mil pessoas morreram no Irã desde o início dos ataques. Autoridades iranianas e organizações humanitárias confirmam que pelo menos 1,3 mil civis foram mortos em ataques americanos e israelenses.

No Líbano, os combates entre Israel e o Hezbollah, grupo armado apoiado pelo Irã, intensificaram a crise humanitária. Mais de 850 pessoas morreram e cerca de 850 mil foram deslocadas, segundo autoridades libanesas.

Treze militares americanos também morreram durante o conflito, incluindo seis em um acidente de avião no Iraque. Israel registrou doze mortes em decorrência dos ataques iranianos. O secretário de Energia dos EUA afirmou que espera que o conflito termine nas próximas semanas, enquanto o governo israelense estima que a guerra possa durar entre três e seis semanas.

Pressão sobre Trump e impacto econômico

A escalada do conflito tem gerado pressão crescente sobre o presidente Donald Trump, que ofereceu explicações variadas sobre os objetivos da guerra. O mandatário americano declarou no domingo (15) que os EUA "ganharam" a guerra, mas que precisam "terminar o trabalho".

Trump também pediu que potências mundiais, incluindo França, Reino Unido, Japão e China, enviem navios de guerra para ajudar a reabrir o Estreito de Ormuz, rota responsável por cerca de 20% do petróleo mundial. Até o momento, nenhum dos países confirmou participação na operação. O Japão afirmou que os esforços para escoltar navios em Ormuz enfrentam "altas barreiras", enquanto a Austrália descartou enviar embarcações.

O preço do petróleo Brent ultrapassou a marca de US$ 105 por barril nesta segunda-feira (16), registrando alta de 2,4% e pressionando ainda mais a economia americana em ano eleitoral. O Pentágono estima que a guerra custou US$ 11,3 bilhões aos cofres americanos apenas nos primeiros seis dias de conflito.

A questão libanesa

Israel afirmou que não há negociações em andamento com o Líbano para encerrar o conflito, apesar de relatos na imprensa internacional sugerirem que conversas mediadas pela França poderiam ocorrer nos próximos dias.

O chanceler israelense, Gideon Saar, declarou que qualquer possibilidade de paz depende de o governo libanês impedir ataques do grupo Hezbollah contra território israelense. Autoridades libanesas, por sua vez, condicionam a abertura de negociações a um cessar-fogo completo por parte de Israel.

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, esteve em Beirute no fim de semana e afirmou que "não há solução militar, apenas diplomacia", pedindo que a comunidade internacional apoie o Líbano. Guterres lançou um apelo humanitário de US$ 325 milhões para ajudar o país a lidar com o deslocamento de centenas de milhares de pessoas.

O que dizem os líderes da região

O presidente dos Emirados Árabes Unidos, Sheikh Mohamed, e o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, realizaram uma conversa telefônica no domingo (15) para discutir os ataques iranianos contra países da região, que representam uma violação de sua soberania.

Ambos os lados enfatizaram a necessidade de uma interrupção imediata da escalada militar entre EUA e Irã, que representa uma ameaça à estabilidade e segurança da região e do mundo como um todo.

A ministra de Estado para Cooperação Internacional dos Emirados, Reem Al Hashimy, classificou os ataques iranianos como "quase descontrolados". Em entrevista à ABC News, ela afirmou: "Foi algo sem precedentes, o que aconteceu, e quase descontrolado, eu diria, o Irã atacar exatamente as pessoas que estavam pedindo desescalada, que estavam pedindo que esta guerra nunca começasse".

A posição dos dois países do Golfo reflete o delicado equilíbrio que as monarquias da região tentam manter desde o início do conflito. Embora abriguem bases militares americanas em seus territórios e dependam da proteção dos EUA para sua segurança, Arábia Saudita e Emirados também buscam preservar canais de diálogo com Teerã para evitar que a crise se expanda ainda mais.

Nos bastidores, diplomatas da região indicam que tanto sauditas quanto emiradenses têm pressionado Washington por moderação, ao mesmo tempo em que tentam convencer o Irã a não ampliar o raio de seus ataques. A estratégia, no entanto, tem se mostrado cada vez mais difícil à medida que os bombardeios se aproximam de centros urbanos e infraestruturas civis.

Na semana passada, o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, visitou ambos os países em uma tentativa de explicar a posição de Teerã e obter apoio para uma saída negociada que não envolva negociações diretas com os EUA. As visitas, no entanto, não produziram resultados concretos até o momento.

Analistas apontam que a continuidade dos ataques a países que não estão formalmente em guerra com o Irã pode isolar ainda mais Teerã diplomaticamente e unir nações do Golfo em torno de uma resposta coordenada. Por outro lado, uma intervenção mais ativa desses países poderia transformar o conflito em uma guerra regional de proporções ainda maiores, cenário que todos dizem querer evitar.

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